Irene Flunser Pimentel: “O poder usa sempre a palavra, tentando impô-la e torná-la única.”

A historiadora Irene Flunser Pimentel é uma das convidadas do MAP, onde irá dirigir uma masterclass com o tema “A Palavra e o Poder”. Em jeito de antecipação daquele que será um dos momentos incontornáveis do festival, Nuno Miguel Guedes esteve à conversa com a vencedora do Prémio Pessoa 2007.

NMG: Qual a relação que a palavra ou a sua ausência imposta – tem com o poder?
O poder usa sempre a palavra, tentando impô-la e torná-la única. Quando no seio dela se expressa a pluralidade e o pluralismo, impõe a sua ausência.

NMG: E como forma de resistência e luta?
A palavra plural é sempre uma forma de resistência e luta contra a palavra única imposta pelo poder,

NMG: Em Portugal conseguimos ter exemplos de uma coisa e de outra, certamente. Poderia dizer-nos alguns?
Como sou historiadora, tendo para procurar exemplos, mais no passado, do que no presente. Em Portugal, durante a longa ditadura que vigorou até 1974, não por acaso, o Secretariado Nacional de Propaganda, dirigido por António Ferro, foi criado em 1933, por Salazar, a par do endurecimento da Censura. Propaganda e censura ficaram assim interligadas. Enquanto a primeira publicitava o novo regime e a sua ideologia, a segunda eliminava qualquer acesso ao conhecimento de alternativas políticas.

Realço também o facto de Salazar ter colocado, nos anos 60 do século XX, os serviços censórios directamente sob a sua tutela. Por outro lado, a PVDE, polícia política, criada no mesmo ano de 1933, reprimia e perseguia quaisquer outras palavras. Embora marcadas por ideologias unívocas, as outras palavras eram, por seu turno, transmitidas clandestinamente através da escrita. Após o 25 de Abril, esperou-se, em vão, que saíssem das gavetas inúmeros manuscritos outrora proibidos. Por outro lado, como afirmou Eduardo Lourenço, em 1976, no seu ensaio «O Fascismo nunca existiu», o «delírio partidário achou preferível substituir à antiga mentira institucionalizada em sistema, uma confiscação brutal e unilateral do direito à verdade, enfim reconquistado».

NMG: Nos dias de hoje, como vê a utilização da palavra em termos políticos? Está banalizada, esvaziada de sentido ou, ao contrário, ganhou força?
Sim, a palavra está banalizada e esvaziada de sentido, e é usada em democracia até para a destruir, mas não vejo outra forma de defender esta última e a liberdade, a não ser pela palavra plural. Sei que me estou a repetir

NMG: O que poderemos esperar da sua masterclass?
Recorro de novo a Eduardo Lourenço, ao lamentar, em 1976, ter-se perdido em Portugal, «a ocasião única de um repensamento colectivo desse fenómeno histórico-político que foi a vida real do país durante quase meio século». Espero, com a minha frágil palavra, tentar levantar «este recalcamento» da memória, com o relato da História. E falarei da Censura e da polícia política, que conseguiram durante décadas eliminar a palavra plural. É o que posso fazer, 48 anos após termos já tantos anos de democracia como de ditadura na nossa História recente.

© Fotografia de Pedro Medeiros