Livro reúne poesia inédita do pintor Júlio Pomar

Um livro de poemas inéditos de Júlio Pomar (1926-2018), muitos deles baseados em frases e provérbios populares, revelando uma expressão artística que se intensificou nos últimos anos da vida do pintor, foi lançado este domingo em Lisboa.

Intitulado “Prima Contradição”, o livro póstumo, editado pela Assírio & Alvim, reúne parte de uma obra poética que nunca recebeu versão definitiva, selecionada entre mais de um milhar de páginas deixadas por Pomar, um modernista multifacetado.

“Esta poesia é muito diferente da outra, quase com ar de quadras populares”, disse à agência Lusa Alexandre Pomar, filho do artista e presidente da fundação criada há vinte anos para guardar e divulgar o legado de Júlio Pomar, que morreu em 2018.

Júlio Pomar publicou ainda em vida dois livros de poemas: “Alguns Eventos” (Dom Quixote, 1992) e “Tratado do Dito e Feito” (Dom Quixote, 2003), que inclui também o texto “Apontar com o Dedo o Centro da Terra”, do escritor e amigo António Lobo Antunes.

“Este é um livro diferente com uma escrita muito direta e acessível, quadras muito baseadas em ditos populares, em frases feitas, em provérbios e expressões populares”, comentou Alexandre Pomar sobre o livro póstumo “Prima Contradição”.

“Não é pior nem melhor/O desinteresse geral/Vamos indo menos mal/E parece que o amor/Não é pecado venal/E neste caso se o for/Não será muito pior/Que Páscoa sem Carnaval”, é um dos versos contidos nos 13 “Cantos” recolhidos no livro.

A seleção de poemas e coordenação da obra coube ao poeta José Alberto Oliveira (1952-2023) e ao filho, José António Oliveira, que, num apontamento sobre a edição, escreve que o trabalho começou assim: “Tentar encontrar um texto tão escorreito quanto possível, e selecionar os poemas que nos pareceram mais conseguidos.”

Os organizadores da obra descrevem também que alguns dos poemas que encontraram neste espólio “foram concebidos como letras de fados, e destes, vários já musicados, muitos aparentemente inacabados, ou constando de variações sobre o mesmo tema, sem indicação de preferência entre variantes.”

Nascido em Lisboa, em 1926, Júlio Pomar pertenceu à chamada terceira geração de pintores modernistas portugueses, e a sua obra multifacetada, centrada na pintura e no desenho, também reúne cerâmica, gravura, ilustração, tapeçaria, cenografia para teatro, destacando-se como um dos maiores animadores do movimento neo-realista.

O seu percurso artístico também está marcado pela intervenção política – foi preso durante a ditadura de Oliveira Salazar — e criou várias obras públicas, entre elas os frescos do Cinema Batalha, no Porto, na década de 1940, que viriam a ser ocultados por ordem policial.

É justamente na década que 1940 que o pintor “foi escrevendo alguma poesia, esquecida, mas nos anos 1970 dedicou-se muito à escrita, parte publicada em livro, com muita prosa e ensaios sobre pintura”.

As primeiras poesias foram publicadas na década de 1970, em colaborações para a revista de Alberto Lacerda “MAIO – International Poetry Magazine, Number One” (1973) e para a revista “NOVA 1” (1975) de Herberto Helder.

“A poesia tornou-se importante nas últimas décadas da vida”, apontou Alexandre Pomar, sobretudo depois de ter deixado Paris, e passar a residir definitivamente em Lisboa.

Na capital portuguesa, “começou a relacionar-se muito com algumas pessoas que frequentavam o universo dos fados, o Raul Solnado, o Cardoso Pires e o Carlos do Carmo, e com eles estabeleceu uma nova relação que o inspirou a escrever esses versos.”

Essa nova fase da vida de Júlio Pomar, a partir da década de 2000, também se refletiu na pintura, criando retratos de fadistas como Mariza, Cristina Branco, Marceneiro e Carlos do Carmo.