Júlia Prado: “Sempre vi as palavras como pequenos universos de infinitas possibilidades de brincadeiras e manifestos”

Júlia Prado é licenciada em Artes Cénicas pela Faculdade de Artes Célia Helena (São Paulo, Brasil), com intercâmbio de um ano pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (Porto, Portugal). Participou nos espetáculos “Antígona”, encenado por Marcelo Lazzarato, “Game Show” encenado por Nuno Cardoso, “Coro dos Maus Alunos” criação coletiva pelo Coletivo 41.601 e “Brothers”, monólogo encenado por Fernando Casaca. Faz parte da Companhia Teatro do Elefante (Setúbal) e Coletivo 41.601 (Porto) e é colaboradora da Bolsa de Poetas e Dizedores de A Palavra. Vai passar pelo Auditório Municipal Ruy de Carvalho, já este domingo, para participar na apresentação da Colecção Batimento em Oeiras.

A Palavra: Como começaste a escrever ou a dizer poesia?
Júlia Prado: Eu tenho uma lembrança muito forte de meus 5/6 anos de idade e escrever espécies de “músicas” (que a minha família canta até hoje). Eu sempre vi as palavras como pequenos universos de infinitas possibilidades de brincadeiras e manifestos. A escrita sempre esteve presente na minha vida, e seguindo carreira de atriz mais ainda. Escrevi sempre para tirar do meu peito minhas aflições, tanto que brinco que minhas poesias são feitas a base do ódio, porque a maioria delas fala sobre indignações minhas.

A Palavra: Existe algum poeta com que gostasses de colaborar? E um músico?
Júlia Prado: Gostaria de colaborar em um projeto que me deixou petrificada, que me fez estar no momento presente só para admirar o talento dos poetas e músicos, o Lisbon Poetry Orchestra. Achei todos impecáveis e imparáveis. Outro projeto que gostaria de participar também seria na Poesia Acústica, um grupo de rap acústico do Brasil.

A Palavra: Tens alguma recomendação literária que gostasses de fazer?
Júlia Prado: A peça “Gota d’Água” de Chico Buarque e Paulo Pontes, que através de muita poesia e música, conta a história da nossa Medéia brasileira preferida.

A Palavra: Poderias partilhar um pequeno poema connosco?
Júlia Prado: Poética – Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante

exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres, etc
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.