Cidade Nua: entrevista com Alexandre Cortez

Em Cidade Nua – Poemas para uma cidade imaginária, a Lisbon Poetry Orchestra e vários convidados especiais abrem caminho para uma cartografia imaginária das cidades do futuro, num espetáculo em que a matéria-prima é feita de música e poesia. Foi em jeito de antecipação desta estreia – marcada para o dia 17 de Dezembro, às 17h00, no Capitólio (Lisboa) – que estivemos à conversa com o criador Alexandre Cortez.

1. Como é que surgiu a ideia/conceito de “Cidade Nua – Poemas para uma cidade imaginária”?

A ideia parte de um desafio lançado pela EGEAC para a criação de um espectáculo de poesia e música que relevasse o espírito natalício ou que cujo mote fosse o Natal. Tendo como ponto de partida a poesia em língua portuguesa quisemos, de uma forma conceptual, desenvolver esta temática numa perspectiva menos canónica do que aquilo a que a Poesia de Natal pode remeter.

Pensámos também na actualidade e nas cidades que, literalmente, não podem comemorar o Natal em paz e liberdade. Cidades em guerra, cidades esventradas cujos habitantes, em muitos casos estão a ser vítimas de uma guerra praticada por fundamentalismos religiosos, cruéis e assassinos. São Cidades Nuas, despidas de fraternidade e a necessitar urgentemente da solidariedade de todos nós. Este é o nosso pequeno contributo.

2. Quem serão os poetas cantados nesta noite?

Ary dos Santos, Jorge de Sena, Al Berto, Fernando Lemos, António José Forte, Carlos Eurico dos Santos, Vinicius de Moraes, Ana Luísa Amaral, Maria Teresa Horta, David Mourão Ferreira, Eugénio de Andrade, João Luís Barreto Guimarães.

3. O que é que surgiu primeiro: a escolha dos poemas ou a composição das músicas?

A escolha dos poemas parte normalmente da composição das músicas. Casos houve em que as músicas se moldaram às palavras, mas de uma maneira geral a música pretende acrescentar algo á normal leitura dos poemas. Apesar do seu carácter por vezes ilustrativo o objectivo é que a música potencie e influencie o imaginário do espectador.

4. E como é que foram escolhidos os convidados especiais: em função da temática ou da música?

São todos eles pessoas que muito admiramos como artistas e que pensamos que se identificam com o espírito e a temática do espectáculo.

5. Este espectáculo terá uma cenografia especial em palco, desenhada por P. curt.ez. O que é que nos podem dizer sobre o cenário, qual será o seu papel?

O cenário remete precisamente para uma cidade esventrada, pós-apocalíptica, é todo construído a partir de peças metálicas retiradas de uma antiga suinicultura, o que também, só por si, metaforicamente transporta uma certa carga de crueldade. Acreditamos que, com a iluminação desenhada pela Joana Mário, pode ter um efeito espectacular sobre o público.

6. No texto de introdução ao espectáculo dizem querer “abrir caminho para uma cartografia imaginária das cidades do futuro”. Como é que imaginam estas cidades e qual será o papel da música e da poesia nelas?

Gostaríamos de imaginar as cidades pacificadas e como espaço de liberdade e harmonia entre os povos. A música e a poesia serão sempre formas de expressão artística que irão contribuir para essa liberdade, mas também para deixar para o futuro a memória de um presente conturbado em que as principais vítimas são os seus habitantes, mártires quase sempre desprotegidos e inocentes.