Alice Neto de Sousa: “Quando era mais nova achava que o «barulho das folhas era o falar das folhas»”

Alice Neto de Sousa @alicensousa (1993), poeta entre outros ofícios, é uma poeta portuguesa com raízes em Angola, convidada regular no programa “Bem-Vindos” na RTP África. No Brasil, em 2021, viu o seu poema “Terra” dar nome à coletânea “Do que ainda nos sobra da guerra” publicado na Editora Ipêamarelo.

Neste início de ano de 2022, o seu mais recente poema “Poeta”, declamado pela primeira vez na 1ª edição PowerList 100 na BANTUMEN, tem conquistado as redes sociais e voado pelo mundo. Atualmente dedica o seu tempo a escrever às prostitutas do metro do Martim Moniz e a “afiar a língua” para temas sociais emergentes. Inquieta por natureza nas palavras e nas escolhas, gosta de liberdade de pensar e de sentir. Um pequena entrevista com a poeta, em antecipação do Batimento no Auditório Municipal Ruy de Carvalho.

A Palavra: Como começaste a escrever ou a dizer poesia?
Alice Neto de Sousa: Desde muito cedo senti a poesia, tanto que quando era mais nova achava que o “barulho das folhas era o falar das folhas”, com o tempo veio a vontade de passar para o papel e agora na vida adulta de dar voz e corpo às palavras.

A Palavra: Existe algum poeta com que gostasses de colaborar? E um músico?
Alice Neto de Sousa: Vários na realidade. Interessa-me explorar momentos de spoken word em duos ou mais, e naturalmente explorar a junção com a música nas suas várias formas, do rap ao fado. Se citasse um artista, viria para o Samuel Mira/Sam the Kid, um poeta e músico, a meu ver.

A Palavra: Tens alguma recomendação literária que gostasses de fazer?
Alice Neto de Sousa: “Cartas a um jovem poeta” de Rainer Maria Rilke.

A Palavra: Poderias partilhar um pequeno poema connosco?

Solidão
E nos silêncios dos latidos sem força,
Nas corridas em que estou sempre atrás,
Nos dias em que não sou mulher nem moça,
Em que a minha dor se lê como um cartaz.
Não encontro capa ou máscara que me valha,
Céu ou terra que me leve,
Camisola ou camisa de malha,
Só esta solidão me serve.

Sousa, A. N. (2021). Solidão. Jornal Relevo (ed. abril, nº 8, a.11, p. 21). Brasil: Curitiba. ISSN 2525-2704